Quinta-feira, Junho 22, 2006

Gozar pelos olhos


Um corpo. Mais outro. Fugitivos das normas. Experimentar confuso pela presença intensa. Desejar e fazer. E sentir como é diferente um corpo com um desejar-outro que não o de sempre. Criar novas vontades, escutar o que as células pedem. Células minhas, células outras. Busca de sintonia no momento presente –com as surpresas de um fluxo que não pára.

Aquele tesão tão-sempre não existe. Eis os corpos aprendendo a fazer novas conexões e a produzir outros afetos. Prazer diferente, que só afeta quem está aberto a isso. E o corpo revolvido de suas conexões mesmas, ciente agora de que pode mudar mais e mais, aprende a linguagem da revolução. E modifica-se.

E esse prazer outro legitima o corpo a ser. Ah! Ele que tão machucado e desprezado foi durantes anos e anos... Agora ele pode ser, simplesmente. Intensamente. Corpo emocionado pelo respeito que sente pela primeira vez por si –sagrado e magnífico. As feridas atropeladas pela violência cotidiana das normas e dever-ser insurgem. Corpo chora. Mas não é de tristeza, não. É de gozo. Prazer de poder existir.

Terça-feira, Junho 13, 2006

Sexo-revolução




Um pouquinho sobre o que tenho pesquisado...

O sexo-mesmo: institucionalizado, pornográfico, de caminhos já percorridos. Sexo-guerra, que apologiza a violência e o descaso. Sexo-capitalismo, que trata as pessoas como bens de consumo. Sexo-doença, causador de traumas e impotências.

Revolução (Houaiss): ato de revolver; passagem sucessiva (de um corpo ao outro).

Fazer um sexo-política, que faça do cuidado com o outro uma prática cotidiana. Um sexo-arte, de estética e criação sem fim. Um sexo-potência, que incite à ação e à vida.

Este blog: espaço de conversa


Quando falei que pretendia escrever regularmente sobre relações afetivas e temas afins, várias pessoas comentaram; “Ah! Que nem a Carrie, do Sex and the City!”. Não sabia o que responder, pois nunca havia visto esse seriado (não que eu abomine televisão; apenas não acho hora de assistir...). Eis então que uma amiga me empresta a primeira temporada inteira, para eu me deliciar com as fábulas nova-iorquinas. Mal agüentei ver dois episódios. Agora, tenho a resposta na ponta da língua: definitivamente, NÃO sou como a Carrie!

O que mais me irritou no seriado foi a guerra dos sexos. Será que os norte-americanos são tão pouco criativos que até em histórias de relações afetivas eles têm de criar mocinhos e bandidos? Os homens: uns babacas, que só pensam em sexo e não querem compromisso (a exceção, o romântico, não é bem homem; assemelha-se mais a um paspalho). As mulheres, ora românticas (e, conseqüentemente, fragilizadas), ora masculinizadas, querendo, a qualquer custo, ter um modo de vida repleto de características viris. Repudiam tanto os homens, mas querem ser iguais a eles? Que preguiça! Há viveres tão mais bonitos e potentes do que o arquétipo do masculino! Por que elas se prendem tanto a ele?

Eu, ao contrário, não gosto de guerras. Há existências tão múltiplas, que só reduzindo muito as pessoas chegamos a generalizações como “mulher” e “homem”. Ora, eu me assemelho mais a certos homens do que a certas mulheres; ou a certas mulheres do que a certos homens. E por aí vai: homens que se parecem com mulheres, que se parecem com homens, que se parecem com ar, com cavalo, com cachoeira, com inteligente, com burro, com chato, com legal, com pobre, com rico, com santo, com devasso. São tantas as associações, que não consigo enxergar o mundo dividido em luluzinhas e bolinhas! Prefiro exercitar mais o observar e o criar, e fazer novas conexões.

Quero aqui pensar as relações afetivas –tem tanto João sofrendo por não encontrar sua Maria (ou seu João). E tem tanta Maria triste, chorosa, carente, buscante. E não se para de falar nisso; e de doer por isso; e de chorar, pensar, gritar, aprisionar. Os relacionamentos são uma marca forte em nossa vida; devemos, pois, pensar neles com carinho e atenção. Mais do que isso, usar a imaginação, questionar o certo e o errado. Já erramos tanto com o certo! Por que não acertar com o errado? Subverter e viver. O primeiro passo, esse que faço aqui, é o pensar. Depois, vem o sentir. Em seguida, criar, e viver, e desejar, e construir, e também destruir.

Palavra de ordem: desejo. Não penso moral; apenas desejo. E juro que não sou egoísta. Desejo meu, desejo outro, desejo nosso. Desejo é presença; é saber lidar com as circunstâncias e não com uma regra geral; é criar, mover, pensar, agir. E pretendo assim compartilhar o meu pensar e meu sentir, que já foi dor, alegria, angústia, certeza, dúvida, choro, prazer, palavra, texto, idéias. E que agora pode ser potência, raiva, sintonia, preguiça, encontro... ou nada...